O NOVATO DA 306

14:53


Recordo-me da primeira vez em que te vi, cabeça baixa, sentado na fileira do meio, na primeira carteira, blusa de frio e uma bermuda jeans, cabelos castanhos e pele morena, estas foram as minhas primeiras impressões ao vê-lo no primeiro dia de aula. Mas seus olhos, que cintilavam como duas pedras de ônix, só pude presenciá-los no terceiro horário, na minha aula favorita, filosofia. O professor havia passado um trabalho pedindo para que nós, alunos, desenhássemos como nos veríamos após nos formarmos na faculdade e depois disso, como seria o nosso plano de vida, de carreira...
O professor teria de escolher um aluno para que falasse primeiro, e sucessivamente, um aluno ao apresentar escolheria outro, até todos terem compartilhado com os novos alunos o seu futuro, os seus sonhos. Lembro exatamente que fui a terceira a ser chamada, não sei se foi por sorte, mas este é o meu número favorito, assim como o novato misterioso se sentava na suposta mesa número três, exatamente no meio, exatamente onde eu precisaria ficar para apresentar, ainda que um pouco nervosa, o meu plano de vida.
Relembro exatamente a minha fala naquela hora, não houve gaguejos, não houve risos, não houve conversas, houve apenas atenção e no final, aplausos. Enquanto observava atentamente o gestos das pessoas a minha frente, me perguntando se estariam me entendendo ou me julgando pelas minhas escolhas, reparo em um único sorriso humilde, de compaixão e compreensão à minha frente, o do próprio mistério. Mesmo envergonhada, sorri de volta o que provocou alguns conflitos e olhares que sinceramente não queria entender.
Logo, os dias se seguiram, ele continuava sentando na frente, não conversava muito e cheia de meninas aos seus pés. Por ser inteligente, não negava ajudar a quem precisava, mesmo que a dúvida fosse sobre quanto equivale 1+1. Aquela aparência de certa forma me deixava nostálgica, e assim, eu me mantinha fixa à ele. Alguns dias depois eu já havia voltado ao meu lugar dos anos anteriores,  carteira da frente ao lado da janela  e ele para a penúltima carteira do outro lado da sala.
Durante às aulas, pude observá-lo mais atentamente pois a minha mesa da dele mantinha-se em uma diagonal perfeita, onde ele conseguiria me ver perfeitamente se quisesse, assim como pude olhá-lo durante várias aulas que se seguiram. Pouco a pouco ele também me observava, mesmo sem ter tanta certeza, acreditei que as suas investidas fossem em mim, sorrisos, piscadas, olhos que brilhavam enquanto eu fingia estar dormindo, olhos que desviavam ao encontrar os meus e olhos que apreciavam os meus quando carregava o olhar vez ou outra.
Não fui a única pessoa a notar o que acontecia na 306, na verdade, a sala toda notou, 46 pessoas sabiam o que fazíamos sem nem ao menos sabermos o que estávamos fazendo na verdade. Minhas amigas insistiam para que eu conversasse com ele, enquanto os amigos dele tentavam nos afastar sempre que estávamos próximos de trocar algumas palavras.
Mas como o destino sempre é justo, as poucas palavras trocadas em uma sexta-feira, foram mais que o suficiente para que descrevêssemos um ao outro, como um só. As nossas perfeições eram parecidas, assim como nossos erros em atividades de matemática, duas mentes diferentes, mas que, porém, se compreendiam melhor juntas, assim como os nossos corações. Na primeira vez que o vi, perdi uma, duas, três batidas do meu coração, agora, olhando pra ele pela diagonal da sala, talvez tenha ganhado algumas batidas de sobra, alguns suspiros nunca revelados e alguns sorrisos que nunca foram forçados. Será que poderá haver algo entre nós? Ou será apenas fruto da minha imaginação? Como irei sobreviver um ano ganhando e perdendo batidas do meu coração pelo novato da 306? Honestamente, não sei, e você, sabe?

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