Eu digo SIM

22:24


Em um dia onde os pisca-piscas têm uma mesma sequência, o enxergo, não por conta de ser o único a vestir um terno no meio do Parque Municipal, mas sim pelo seu sorriso ao me notar indo em sua presença. Amo a forma como ele sorri ao me ver, me abraça sem pedir permissão e pergunta como foi o meu dia. Mas algo nele parece tenso, mas insisto com o meu coração em não perguntar, talvez seja o chefe dele ー que além de pegar muito no seu pé, por ser seu padrasto, ainda o tenha feito trabalhar em pleno dia 24, Véspera de Natal  ou simplesmente acordou com o pé esquerdo e quer apenas um pouco de descanso. Então caminhamos. Os enfeites natalinos estão por toda parte, luzes vermelhas, amarelas, brancas, laranjas, verdes, em um único foco, em uma imensidão de contrastes. Vejo a Casa do Papai Noel à esquerda e ele sorri e tira várias fotos com as crianças que esperam ansiosas na fila para conhecer o bom velhinho. Vejo um imenso pinheiro no meio do parque, todo enfeitado com diversas bolas de tamanhos e cores diferentes. À minha direita vejo o lago, o mesmo em que brincávamos quando éramos crianças, agora ele parece apenas uma velha lembrança de quando o mundo era diferente, mais infantil, amável e cheio de esperança. Hoje em dia vejo tudo de uma forma nova, onde as pessoas se mostram coloridas através de roupas e não de si mesmas, pois dentro delas, apresentam apenas o vazio. E é desta forma que vejo o Natal, uma imensidão de cores e pessoas em volta dela, vazias e sem emoção. O Natal deveria ser a partilha, a troca de presentes, sorrisos esperançosos, a presença da família, a união e prosperidade. 
Estando perdida em pensamentos, quase não percebo quando Mário me chama.
ー Isabella, em que mundo você está? Estou te chamando à horas.
ー Desculpinha, eu estava pensando sobre algumas coisas e acabei me perdendo do presente, poderia repetir o que disse?
ー Eu estava apenas dizendo o quanto foi chato trabalhar em plena Véspera de Natal. Mas o que a senhorita estava pensando?
ー Sobre o quanto as pessoas são vazias durante o ano e mais ainda durante o Natal. Elas usam roupas coloridas para parecerem vivas, mas na verdade estão vivendo um caos, uma escuridão. Enfeitam suas casas para mostrar que o ano prospera, gastam rios de dinheiro comprando presentes e participando de amigo oculto sem nunca receber algo bom o bastante. Cada vez mais distanciam-se das pessoas físicas para se preocuparem com suas aparências sociais na internet, por quê o mundo mudou tanto?
ー Ual Isa, não sabia que você era capaz de pensar em tanta coisa sem explodir. Brincadeirinha morena, não apela comigo. (faço beicinho) Mas vamos falar sério agora, eu sei o quanto você detesta a forma como as pessoas vêem o Natal, e talvez você realmente esteja certa e o mundo todo seja vazio e escuro, sendo nossa única marca e cor, as nossas vestimentas, mas por favor, não dá pra largar essa cabecinha pensante um pouquinho. Parar de se sobrecarregar tanto, por que isso aqui (ele toca na minha cabeça), está saindo fumaça e têm alguém aqui que veio de muito longe te ver. Me dá um abraço, eu estava morrendo de saudades.
E eu o abraço.
Caminhando em direção a entrada do parque, avistamos uma sorveteria e resolvemos fazer uma parada rápida para comprarmos casquinhas de sorvete para irmos tomando até chegarmos na minha casa. Enquanto Mário dirigia fomos conversando amenidades, enquanto eu tomava o meu sorvete e enquanto ele não olhava o dele também.
Quando chegamos na portaria do meu prédio, Mário parecia trêmulo e aquilo me espantava um pouco, pois nunca o havia visto daquela forma. Ele fez questão de ser cavalheiro como sempre e abrir a porta do carona para mim, assim como a porta da frente da portaria e da minha casa.
Depois de acendermos as luzes e ligarmos a televisão nos sentamos no sofá, ainda são sete horas da noite e minha mãe pediu para chegarmos no sítio depois das dez. Assistimos então o início de uma novela, o término de outra, até reparar no rosto dele, parece tão charmoso de perfil que ninguém se permite olhar por muito tempo para não ofuscar os olhos. E como sempre ele também me encara, não sei o que ele pensa de mim, mas sei que não ligaria se ele tentasse me beijar agora, nos conhecemos a tanto tempo mas isso parece tão certo, tão correto.
[Mário: Por que ela me olha dessa forma? Parece que quer algo de mim, ou sabe exatamente porquê vim aqui. Espero que ela me diga sim, espero que de alguma forma, mesmo que sejamos amigos de longa data ela ainda diga sim. Eu a amo, eu preciso beijá-la, preciso saber o sabor dela, será que é flocos como o sorvete? E se ela não me quiser? Mas eu preciso tentar! Logo logo é Natal, cedo ou tarde preciso de uma resposta, não posso esperar mais tempo...] 
Então a beijo. 
Então ele me beija, e é o beijo mais quente e doce que já tive na vida. Seus movimentos são certeiros, parecem calculados como se realmente esperasse por isso. Como se realmente me quisesse. Como eu o quero. Eu o quero agora, por inteiro, só pra mim.
Não sei quem começa a se desgrudar primeiro, mas olhando um para o outro sabemos o que mais queríamos agora. Não ser humanos, não precisar pegar fôlego. É isso que eu preciso, de fôlego.
ー Ual.
ー É... Ual, não sabia que beijava tão bem morena. Mas pode falar, eu beijo muito não é?
ー E eu não sabia que era tão convencido.
ー Por que você ama estragar todos os meus momentos?
ー Por que você é tão imbecil?
ー Bela pergunta morena.
E nos beijamos de novo.
Chegamos no sítio da minha família às 22:30. Ainda não entendo como depois de todas as paradas que tivemos no meio do caminho para nos beijarmos mais um pouco não nos fizeram perder a ceia. Depois de cumprimentarmos toda a minha família, descemos com duas taças de champanhe para o balanço que antes brincávamos quando éramos crianças e agora é nosso porto seguro e onde um chama o outro para conversar com mais privacidade por ser mais afastado da casa, do estacionamento e das piscinas.
ー Quer conversar sobre o beijo? ー Começo
ー Isa só aconteceu, okay? Você beija bem, e eu gosto muito você, você é minha melhor amiga do mundo todo. Você sabe disso né?
ー Mário, eu...
ー Mário, Isa, o vovó está dançando em cima do sofá com as crianças venham ver! ーMinha irmã Louisa grita.
ー Você não vai perder isso, não é Isa? ー Mário exclama
Então meu senso de curiosidade é maior que tudo que eu sinto aqui dentro, ainda terei muito tempo para falar o que eu sinto, mas não posso perder o meu avô dançando. Ele era professor de dança de salão, mas nunca quis revelar os seus truques para mim até ter que me ensinar a dançar valsa na minha festa de quinze anos.
Porém quando entro na casa não encontro ninguém, nem meu avó, ou o grito das crianças, uma música ambiente, encontro apenas um caminho de pétalas de rosas, mas não me lembro de ter encontrado isso no chão quando cheguei, então eu o sigo, ele me leva a sala de estar que está totalmente escura, apenas com algumas velas aromatizantes no canto e a belíssima árvore de Natal, piscando como sempre. Primeiro azuis, verdes, vermelhas, amarelas, laranjas, brancas e assim respectivamente e então o escuto.
ー Isabella Castilho, à muito tempo eu te conheço, sei das suas fraquezas, sei o que te fez chorar, sei os seus motivos de sorrir, conheço as expressões no seu rosto, sei quantas vezes já caiu, qual vestido você comprou semana passada e quantos livros você já leu sua vida inteira. O teu sorriso me lembra o mar, uma brisa fresca, um suco gelado de maracujá e uma imensidão de desejos, seus olhos castanhos me lembram montanhas, cordilheiras vistas do alto em miniatura, pois você morena, é o infinito. Os seus cabelos castanhos me lembram poesia pois quanto mais chego perto deles sinto gosto de baunilha. Você por inteiro é uma formosura sem fim, Seu José e a Dona Júlia que se cuidem, pois eu quero roubar você pra mim. Desde que te vi pela primeira vez eu descobri o que era paixão, agora sei o que é o amor e eu te amo Isa. Quer namorar comigo?
ー Eu digo... SIM.
E então pulo nos seus braços e o beijo, as luzes se ascendem e minha família bate palmas e as crianças me abraçam, meu pai dá a benção junto da minha mãe e depois disso tudo mais uma surpresa acontece.
ー Eu ajoelho agora Isa, como forma de respeito e de amor, eu quero você pra sempre comigo e prometo honrá-la e guardá-la na frente da sua família. Aceita este anel como prova do meu amor?
E eu digo:
ー Sim!
Agora são 23:59 e não desejo mais nada de Natal, minha família está comigo, por alguma razão divina namoro o homem que eu amei desde os meus oito anos e finalmente me sinto completa e colorida como as lâmpadas da árvore de Natal.
ー Morena?
ー Oi branquelo.
ー O que está pensando?
ー No quanto este final de ano está sendo perfeito.
ー Posso te presentear hoje pela última vez?
ー Vai em frente.
ー Eu escutei alguém hoje mais cedo dizer que o mundo não se passa de escuridão, meros mortais perdidos nas trevas eternas a beira do caos e então resolvi tornar colorida a vida de alguém que eu amo, mas não só por dentro como por fora, sabe como?
ー Como?
ー Te enchendo de pisca-pisca.
Então eu o beijo.
E agora é apenas 00:00 de um dia 25 de dezembro, para um casal que realmente disse SIM ao Natal e ao amor.
Eu digo SIM e você?

Beijinhos e até amanhã! Feliz Natal á todos!

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